💚

‘temos é que ser gente, pá!’

Zeca Afonso

Anúncios

Culpa e narcisismo na tragédia moderna

“Em um primeiro momento, o ponto de vista de que o declínio da culpa na sua vertente civilizatória, ou seja, aquela que promove o laço social como valor presente nas relações humanas, corresponde na contemporaneidade à configuração de uma organização social perversa e narcísica. Assim, partiremos da ideia de que a sociedade atual apresenta uma face perversa, buscando, pois, entender as cenas e enlaçamentos perversos da sociedade pós-moderna.
Em um segundo momento, trabalharemos com a ideia contraditória presente nesse mesmo conceito. Dessa vez, não mais trataremos do declínio da culpa, mas, da ideia de uma exacerbação desse sentimento em relação ao próprio sujeito. Enquanto a ausência da culpa aponta para uma desconsideração da dimensão da alteridade, o seu excesso estaria ligado ao narcisismo primário, que tem como consequência o mesmo desvanecimento da alteridade. Assim, o sujeito é desculpabilizado na sua relação com o outro e culpabilizado na sua relação consigo mesmo, por não responder a todos os signos de sucesso que elevam sua majestade – o eu à condição de eu ideal.
Estamos diante de uma perspectiva trágica no que se refere à relação eu-outro, pois um dos elementos definidores da tragédia é a ausência de saída, a inevitabilidade do acontecimento. O mundo pós-moderno parece reduzir inevitavelmente o campo da relação alteritária por duas vias: ou o outro é reduzido, porque ocorre uma diminuição da culpa do eu em relação ao outro, ou é diminuído, porque vivemos uma exacerbação do eu ideal fechado em sua magnitude de rei. Mas a tragédia moderna é idêntica à clássica?”

http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2316-51972012000100005

“Acreditar no Pai Natal”

PaiNatal

(todos os Natais o Pai Natal feito por ela, ainda anda por cá /94)

Quando a M. era pequena e andava numa escola dita um bocadinho “especial”, a questão de acreditar ou não no Pai Natal nem sequer se punha. Era raro o menino ou menina, por menos idade que tivesse, que naquele universo de famílias, fosse levado a acreditar numa história assim. Era vista principalmente como um “enganar-de-criancinhas”, ainda para mais sabendo que viria a ter de ser desmascarada, mais tarde ou mais cedo e fazer dos adultos responsáveis, praticamente uns aldrabões aos olhos das suas crianças 🙂 A sensação (parva, acho eu agora) que aqueles adultos tinham, era na maior parte dos casos esta…

Entretanto fomos para Itália e a M. no Natal, na sua nova escola, deparou-se novamente com o assunto. Ali, contrariamente a cá, não há menino nenhum que não acredite no Pai Natal e na “Befana”, a bruxa que, juntamente com os reis magos, vem trazer doces ou carvões aos meninos bem ou mal comportados.

– Mãe! Tenho uma novidade muito boa para te contar!

– Sabes?! – Afinal o Pai Natal existe!!! :))

… Ó M…. Lembras-te que já falamos disso? Em Portugal… Já te expliquei… A história que alguns pais contam a alguns meninos, porque provavelmente também lhes contaram a eles em criança…

– Não mãe! Não estás a perceber!  Afinal é mesmo verdade!!

– M…

– Foi a professora que confirmou, eu perguntei-lhe! As professoras não mentem! Tentei explicar a uma amiga que o Pai Natal não existia e ela ficou a olhar para mim e disse que eu estava maluca… Disse-lhe que a minha mãe me tinha explicado, que alguns pais contavam aquela história… Depois fomos falar com a professora e eu contei-lhe também que tu me tinhas dito a verdade… Ó mãe, a professora disse que era verdade, que ele existe!! Ele existe!!! Não é giro?! Estou muito contente, por te teres enganado… |:)|

Bem… Foi uma trapalhada de pensamentos… Andei horas a hesitar entre passar por mãe aldrabona, por deixar que a palavra da professora fosse de maior confiança do que a minha… E deixa-la viver aquela que afinal de contas era uma alegria (estava à vista) e sinal de inocência ajustada e possível apenas naquela idade, comum a todos os meninos do novo universo dela…

Fui falar com a professora, ainda falava mal italiano e lembro-me que não foi fácil 🙂 Depois de algum pasmo e estranheza, acabamos por chamar a M. à parte e a professora lá lhe explicou que de facto, mais do que o prazer do Pai Natal existir, a mãe era de confiança… Ainda assim, os outros meninos, todos, não podiam saber de nada, nem desconfiar e que por isso ela, embora da idade deles tinha que os “proteger” da verdade, como faziam os adultos…

A M. saiu da escola pela mão da mãe-de-confiança e quando chegou a casa, virou-se para mim, com um ar pensativo e decidido e disse:

– Sabes mãe, estive a pensar e percebi que se acreditarmos muito numa coisa é como se ela fosse verdade e eu quero acreditar… A partir de agora acredito no Pai Natal, olha que acredito mesmo! Por isso existe :))

Eu muito espantada a olhar para ela feliz e tão feliz por ela, que pôde e escolheu ser criança.

Ela tinha 6 anos e acreditou o tempo que quis acreditar.

Eu tinha 24 anos 🙂 e ainda hoje, “quase-acredito” 🙂

Dedo mindinho

670px-RaisePinky-Step-2

É a segunda vez que paro o carro atravessado à frente de um autocarro… A primeira foi por causa de uma senhora de idade, ia a passar e já não deixei o autocarro arrancar. Desta vez assisti à pouca vergonha de uma senhora a correr, vinda do emprego, cheia de sacos, para uma paragem onde só existe um autocarro, que passa com intervalos de espera gigantes. O cretino do motorista, parado na paragem, deixou a mulher chegar esbaforida ao autocarro, olhou para ela por detrás da porta fechada e arrancou… “Atirei” com a senhora e com os sacos para dentro do carro e fui atrás dele até à paragem seguinte. No entretanto, o carro apitava por todo o lado porque a senhora não conseguia pôr o cinto, eu a vociferar contra o idiota-e-o-seu-poderzinho-pequenino, ainda ouvi a senhora a explicar-me que ali é mesmo assim. – Às vezes, estamos sentadAs na paragem e ele passa por nós e finge que não está ninguém… É a vida… Na paragem seguinte, outra vez já com as portas fechadas, olhou para mim e ainda hesitou. Pus os quatro piscas e saí do carro. Mau, Maria… O pessoal do autocarro, todo a olhar, ele praticamente o único branco… – Sabem porque é que este senhor faz estas coisas? Gritei eu em nervos. – Porque o coitado é infeliz, porque tem a pilinha muito pequenina. Coitado! Risada geral e a porta aberta. Desta vez correu-lhe mal. Um dia levo uma sova… Não gosto de saber de gente que acha, que a Vida é mesmo assim : (